Colunista

Estudos de Gênero, Ideologia de Gênero ou Loucuras de Gênero?

Prof. Dr. Rodrigo Guimarães

Neste artigo, faço algumas considerações sobre o texto publicado no site Café História: história feita com cliques, intitulado Gênero não é ideologia: explicando os Estudos de Gênero de Georgiane Garabely Heil Vázquez, professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (27/11/2017). Antes de começar propriamente a análise desse artigo, é preciso deixar claro que a contestação dos discursos de gênero não é obra de fascistas. Os contendores destes discursos, no geral, estão imbuídos da intenção de proteger as crianças daquilo que observam como prejudicial ao desenvolvimento de suas personalidades. Além do mais, a controvérsia intelectual faz parte do processo de conhecimento de qualquer objeto. Desse modo, não se trata de questionar o prazer sexual nem a vida de gays, lésbicas e travestis, mas de expor um grupo de intelectuais com perspectivas revolucionárias como agentes de processos neurolinguísticos voltados para a massa brasileira, especialmente crianças na educação infantil. Uma premissa básica desta exposição é a de que os discursos de gênero só dizem respeito à sexualidade humana de forma muito superficial, assim, a hipótese a ser melhor investigada é a de que podem atuar para gerar uma crise dos estatutos antropológicos nas massas ocidentais.
Ao mesmo tempo que atuam como agentes da desconstrução das identidades tradicionais, impressiona a vitimização que constitui o imaginário da nossa intelectualidade acadêmica. Quem trabalha em prol da materialização dos discursos de gênero não está em posição de resistência em guetos universitários. Muito pelo contrário, as universidades são seus polos irradiadores para todo o Brasil, concebidos no exterior, e que fazem parte, na atualidade, da formação massiva dos professores da educação básica. Nesse sentido, a autora afirma que: “A área já possui um curso de bacharelado específico (Bacharelado em Gênero e Diversidade, na UFBA), disciplinas de graduação e pós-graduação em várias áreas, além de inúmeros projetos de pesquisa e extensão.” Os discursos de gênero estão no interior das escolas infantis, na adoção da grande mídia de ídolos pop com identidades sexuais borradas, nas novelas da Rede Globo, no jornalismo de massa, etc.
Dessa forma, estes discursos já estão num processo avançado de cristalização no Brasil, sendo construídos há muitos anos sem encontrar contestação, como diz a autora: “Os Estudos de Gênero hoje figuram como uma das áreas mais consolidadas nas universidades internacionais e brasileiras.” Do mesmo modo, diz que: “(…) se passaram 30 anos. E todo esse período foi de muita luta para a consolidação de um campo de investigação acadêmica.” O que essas falas revelam é que muito dinheiro público está sendo e já foi investido na divulgação destes discursos, cujo centro irradiador são as universidades públicas. Entretanto, os grupos conservadores que fazem sua contenção atual contam tão somente com as redes sociais.
É irônico observar: O público universitário acredita piamente que a militância na perspectiva de gênero traz algo positivamente subversivo às massas, que as estão ajudando a serem mais libertas, quando está na realidade plenamente alinhado com as agendas de órgãos políticos internacionais sedentos por concentração de poder, sendo estes os pais e mães destes discursos. Em suma, eles podem ser parte dos esforços neurolinguísticos de órgãos como o Fórum Econômico Mundial ou da ONU que esperam desestabilizar nas massas nacionais qualquer identidade tradicional, homogeneizando culturalmente o ocidente em termos da adoção de suas agendas em todos os países. Como exemplo, a ONU assume em sua agenda que é preciso: “Proteger os Direitos Humanos e promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres e das meninas.” Sem explicar claramente como algo pode ser igual e ao mesmo tempo empoderar um dos lados. Bem, a conclusão possível pode ser a de que se pretende borrar os sexos enquanto referência simbólica humana através da anulação da virilidade no homem masculino. Agora, como militantes de gênero no Brasil, que faz parte da agenda global, com data e local de nascimento nas agências internacionais, com uma incrível aceleração atual em todos os países ocidentais, podem se sentir tão vitimizados e tão subversivos?
Vitimismos a parte, vamos ao artigo. Como o nome faz transparecer, sua argumentação quer desconstruir a ligação semântica entre gênero e ideologia, rebatendo, como diz a autora: “o aumento da propagação de discursos equivocados sobre o campo nos últimos anos, especialmente no Brasil.” Isto tudo, além de apresentar os discursos que vinculam gênero com estudo como aqueles que cheios de intenções belíssimas caminham para a construção de um mundo novo de paz e justiça. Será, então, que o artigo irá demonstrar ao grande público brasileiro, ao vincular gênero com estudo, as bases científicas destes estudos e da militância de gênero? Não, nada disso, parece que seus proponentes desistiram de fazer como Marx e Engels que elaboraram o “socialismo científico”, expondo a inevitabilidade histórica da supressão do capitalismo. No artigo, não foi exposto nenhum argumento em prol da inevitabilidade histórica da supressão das relações entre homens e mulheres no casamento, por exemplo. Assim como não explicou como seria possível materializar geneticamente um transexual. Dessa forma, se seriam estudos e não apenas prática política, a autora deveria comprovar as bases científicas deles, para legitimar seu financiamento pelos pagadores de impostos.
Se a autora quer associar gênero com estudo, seria preciso então mudar a apresentação que faz do termo Estudos de Gênero, pois na forma como está escrito o artigo, parece claro que ele nasceu de um movimento político e não científico: o feminismo. Concordo que a luta por direitos civis é um marco positivo das sociedades ocidentais: A existência de um conjunto de regras iguais para todos os membros da sociedade que permita o desenvolvimento de suas personalidades, o qual só foi possível nestas sociedades. Então, a autora diz que os estudos históricos no século XX começaram a dar importância à mulher em trabalhos sobre o cotidiano das populações, neste momento em que as mulheres lutavam por direitos civis.
Depois, no final da década de 1970, diz a autora que: “Feministas como Angela Davis e Bell Hooks, colocaram o dedo na ferida ao dizer que as mulheres não viviam da mesma forma a experiência de ser mulher. Outras variáveis precisavam ser levadas em consideração, como classe, cor, escolaridade, dentre outros aspectos que precisavam ser compreendidos.” Parece evidente que tudo que se precisava era compreender que a complexidade das sociedades ocidentais criou uma série de contextos sociais diferenciados de atuação entre homens e mulheres. É absolutamente legítimo que se estude estes contextos e que se observe formas de tratamento diferenciados entre os sexos. Mas a questão aqui não é essa, o desejo destes intelectuais está em operar a linguagem através do método desconstrucionista até o limite do imaginável, problematizar todas as identificações possíveis dos seres humanos em qualquer ambiente social e projetar novas. A desconstrução cria uma sequência matricial de diferenciações humanas possíveis até chegar ao ponto de diluir qualquer base comum de identificação entre homens e mulheres, de mulheres entre si, de homens entre si, de mulheres pretas entre si, de homossexuais entre si, etc., num processo que tende ao infinito. Aqui o enfoque sempre será político e revolucionário, pois a partir dessas diferenciações matriciais infinitas, muito mais próximas da matemática do que das ciências sociais, se construirá a partir da intelectualidade acadêmica e da militância de gênero uma série de insatisfações pontuais para cada grupo/indivíduo abstrato e específico, materializável apenas de forma performática, que devem ser satisfeitas por estruturas estatais que concentram poder.
A inevitabilidade lógica da desconstrução de gênero aponta para a impossibilidade da existência de direitos civis, pois cada minoria/indivíduo pode fazer jus a direitos específicos. Dessa forma, a base comum dos direitos civis pode acabar sendo substituída por um Estado que assume todas as responsabilidades e que abarca a todos. Neste processo, se perderão os pontos de contato comum entre cada personalidade individual que forma o gênero humano, que se dilui numa massa de pequenos grupos abstratos e fluídos que anseiam por exclusividades. A autora do artigo tem razão quando diz que a militância de gênero nas escolas e em outros lugares não quer “modificar a sexualidade de ninguém.” Realmente, a questão é mais profunda, a revolução que estes discursos pregam subvertem o próprio gênero humano, borram as referenciais antropológicas da humanidade e inauguram uma crise identitária sem precedentes.
No geral, ou se pensa a humanidade em termos de personalidades individuais, que apresentam determinadas vocações que são vividas em sociedade, constituídas pelo gênero humano sexuado, com dois sexos distintos que moldam estruturas psicológicas e anatômicas próprias de acordo com a estrutura metafísica da realidade. Ou se pensa a humanidade a partir da construção de uma massa que será operada deste um centro de poder a partir de uma estrutura matricial de diferenciações possíveis, com os sexos borrados, gerando grupos cada vez mais específicos e individualizados, que inventam comportamentos performáticos, que podem se identificar com qualquer coisa, pois qualquer estatuto ontológico humano perdeu o sentido. Os estudos de gênero, o Fórum Econômico Mundial e a ONU operam neste segundo nível, o que inviabiliza os direitos civis, concentra poder e enlouquece a massa.
Segundo a autora, o conceito de gênero entrou em circulação no Brasil no final dos anos 1980, através da publicação de um artigo da norte-americana Joan Scott: Gênero: Uma categoria útil de análise. Conforme a autora: “Joan propõe o gênero como uma categoria de análise e não como um tema ou objeto.” Ou seja, gênero seria mais um ponto matricial de diferenciação analítica de agrupamentos humanos cada vez mais específicos, numa estrutura matricial que já operava com classe, idade, raça, sexo, etc. Porém, a questão nunca foi apenas analítica, como o termo Estudos de Gênero quer fazer transparecer, mas sim revolucionária, política, tal como Joan Scott propõe: “A oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se parte do próprio significado de poder; pôr em questão ou alterar qualquer de seus aspectos ameaça o sistema inteiro.” Agora, essa revolução do sistema social inteiro interessa a quem exatamente? Serão os proletários ou os oprimidos que assumirão o poder da sociedade? Ou melhor, as relações de poder seriam extintas através dessa revolução? É possível se destruir um sistema social sem gerar o caos, uma crise que gestará uma nova ordem? Quem me garante que a nova ordem será melhor que a atual? Seria da responsabilidade da intelectualidade brasileira que milita em torno dos discursos de gênero responder estas questões, mas como fazer isso sem expor os projetos de concentração de poder das agências globais. A minha hipótese é a de que os militantes de gênero não sabem para quem trabalham.
Dessa forma, observar os discursos de gênero apenas como um campo de estudos, nos coloca algumas questões que precisam ser melhor explicitadas. A primeira, diz respeito às delimitações de um campo de estudos que é característico das Ciências Sociais, ou seja, observar certas relações sociais levando em consideração as influências das próprias relações sociais cristalizadas em normas. Isso é um recorte da realidade que pode ser realizado para fins de análise de determinadas relações que foram também abstraídas de todas as relações que os indivíduos poderiam se envolver, no caso, relações entre os sexos. O problema aqui é confundir esses recortes específicos com toda a realidade, por exemplo, os “estereótipos” de gênero não dão conta de toda a realidade antropológica da espécie humana que envolve a simbologia natural dos sexos, as diferenças reprodutivas, hormonais, psicológicas, etc.
A segunda é a de que, após recortar da realidade apenas as influências sociais normativas, os estudos de gênero passam a argumentar que toda essa construção social normativa da civilização ocidental deve ser problematizada por envolver relações de poder. O problema é que alguma forma de poder estará sempre envolvida em todas as relações humanas, isto é uma constante. Assim, não há como abstrair que modificando completamente os códigos normativos e linguísticos tradicionais das relações entre os sexos no Ocidente, o poder desaparecerá destas relações.
Outra questão envolvida nos estudos de gênero é aquela que pressupõe que a inserção linguística de novos termos para caracterizar gêneros para as massas ocidentais possuiria um potencial revolucionário. Certamente possui, por seu caráter desestabilizador das identidades tradicionais da massa. Dessa forma, os processos neurolinguísticos dos estudos de gênero podem desorganizar todas as relações sociais sem que seja possível afirmar que tal desestabilização produza apenas efeitos positivos na vida dos indivíduos. Assim, percebe-se claramente uma estrutura destes estudos: recorta-se da realidade apenas os aspectos normativos das relações sociais entre os sexos; condena-se estas relações por envolverem poder; divulga-se novos termos para a massa, a fim de desorganizar suas relações sociais; nasce uma nova sociedade libertária. Na minha argumentação, este processo gerará uma série de neuroses na massa, principalmente em crianças, ao mesmo tempo que os indivíduos ao verem problematizadas todas relações sociais tenderão a buscar no Estado ou nas agências internacionais alguma orientação.
Desse modo, é impossível não admitir o papel político-revolucionário dos Estudos de gênero, embora não sustentado por uma doutrina racionalmente estruturada, mas pela desconstrução de todas as relações sociais. Como exemplo, a autora parece não compreender a flagrante contradição lógica que está em seu discurso, quando diz que: “Não se trata de negar as diferenças sexuais e corporais entre homens e mulheres, mas de compreendê-las não como naturais e determinadas [Como é possível não negar as diferenças corporais e sexuais da espécie humana se não as compreende como naturais e determinadas? Será que homens e mulheres nasceriam completamente iguais, com diferenças corporais e sexuais não determinadas geneticamente?], mas como relações sociais e de poder, que produziram hierarquias e dominação.” [Como é possível não negar as diferenças corporais e sexuais se essas diferenças só serão produzidas por relações de poder? Será que as relações de poder fizeram uma mulher nascer com útero e um homem com pênis?] Não há como justificar logicamente o borramento das diferenças sexuais entre homens e mulheres pelos Estudos de gênero, isso deve ser entendido apenas como uma arma neurolinguística para criar tensões e processos disruptivos na massa.
No artigo, este borramento das diferenças sexuais que a autora já incorporou como matriz linguística de seu pensamento é creditada a Judith Butler. A “filósofa” é apresentada como aquela que deu um passo além na construção teórica dos estudos de gênero, com ela os sexos masculinos e femininos são desnaturalizados, como isso se projeta para a massa que ninguém nasce homem ou mulher, que a divisão de sexos faz parte de um discurso heteronormativo. O problema aqui não tem nada a ver com as práticas da sexualidade humana, mas com o borramento das fronteiras entre os sexos, deixando qualquer indivíduo num limbo que o induz a problematizar todos os referenciais estáveis presentes tradicionalmente no ambiente social, abrindo a possibilidade do indivíduo se identificar com qualquer projeção da mente. Desta forma, os Estudos de gênero não podem mesmo ser uma Ideologia, por não se tratar de um discurso lógico-racional que revela uma doutrina específica sobre a realidade, mas um processo neurolinguístico que induz na massa a problematização de tudo que a envolve socialmente, começando pela sua identidade corporal enquanto homem ou mulher. Assim, não há como não concordar com a autora quando esta diz que: “A expressão ‘ideologia de gênero’, que tanto tem sido empregada nos dias de hoje para criticar os Estudos de Gênero, não é uma categoria acadêmica ou um objeto de pesquisa. Como vimos, os pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam o entendem justamente no contrário: que gênero não é uma ideologia.” Talvez, a melhor forma de se referir a estes processos neurolinguísticos e não ideológicos seja a expressão Loucura de Gênero.
Eu realmente fiquei na dúvida se a autora já refletiu seriamente sobre as consequências revolucionárias dos discursos que abraça. No final, ela parece querer disfarçar esse potencial revolucionário ao afirmar que: “Estudar Gênero significa estabelecer um recorte sobre aspectos da realidade social existente – no presente e/ou no passado – que têm como peça fundamental a organização de papeis sociais baseada numa imagem socialmente construída acerca do que foi consolidado como sendo masculino ou feminino por exemplo.” Não se trata apenas de um recorte quando se parte da premissa de que os sexos feminino e masculino são naturalmente borrados, a espera de serem “consolidados”, talvez os pais devessem ficar tranquilos esperando suas crianças serem “consolidadas” por intelectuais gabaritados.
No final, a autora cria uma série de possibilidades futuras muito bonitas que nascerão deste borramento dos sexos, cenários sociais futuros que não guardam nenhuma estrutura lógica com os discursos que professa. Diz ela que: “Não existe ideologia de gênero! E se os Estudos de Gênero puderem impactar de forma transformadora em nossa sociedade, será na construção de um mundo mais justo e igualitário. Um mundo em que meninas não sejam mortas por namorados. Um mundo sem violência doméstica, sem exploração sexual. Um mundo em que ninguém tenha medo da igualdade de direitos e deveres.”
Não há garantia alguma que a Loucura (não ideologia) de Gênero garantirá esse mundo tão bonito, projetado e sonhado pela autora. O que podemos prever é o aumento de neuroses na massa decorrentes da indução a problematizarem todas as coisas; o aumento de neuroses em crianças que ensinadas sobre o borramento sexual não saberão usar como orientação pessoal suas próprias percepções da realidade; o aumento de comportamentos disruptivos na massa que perde as referências estáveis herdadas por sua cultura; o aumento de pessoas frágeis, docilizadas que necessitam de comandos para saberem como se comportarem; etc. Portanto, o que a Loucura de Gênero pode gerar na massa é um efeito paralisante muito apropriado a quem quer concentrar poder. Será que os agentes da ONU, militando através das universidades, serão surpreendidos com o resultado concentrador de poder de suas ações? Será que responderão ao crescimento de neuroses na massa com mais Estudos de Gênero? Portando, mesmo apresentando estes discursos como Estudos foi impossível para a autora disfarçar seu desejo político-revolucionário, que sendo materializado dificilmente produzirá a imagem mental de um mundo justo e igualitário; tendo a pensar que produzirá indivíduos neurotizados, preparados para serem servidos na mesa de poderes cada vez mais centralizados.

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