Colunista

A Loucura de Gênero não Saiu do Armário, mas da ONU

Prof. Dr. Rodrigo Guimarães

 

Neste artigo vou comentar brevemente a percepção e a reação dos ativistas de gênero no Brasil a respeito da contenção aos seus discursos, sintetizada, por exemplo, nas mais de 350 mil assinaturas contra a presença de Judith Butler no Brasil. O elemento motivador destas críticas, irradiadas pelas redes sociais, pode estar na preocupação de grupos conservadores e cristãos com o impacto que os discursos de gênero causam nas personalidades infantis, pois há a divulgação deles até mesmo para crianças menores de 7 anos de idade. A atuação dos ativistas de gênero, na medida em que se inserem na educação infantil, pode encontrar famílias que não estão ainda devidamente preparadas para aceitar que a escola problematize o estatuto antropológico de seus filhos. Porém, essa preparação está em pleno curso no Brasil, acredito que muito dos discursos sobre gênero na grande mídia são dirigidos para vencer essas resistências.

A partir desse cenário, analiso o artigo que o prof. Leandro Colling da Universidade Federal da Bahia publicou no jornal baiano Correio em 23/11/2017 intitulado: “Para o armário não voltaremos nunca mais!.” É preciso esclarecer que grande parte dos ativistas de gênero no Brasil estão ligados às universidades públicas, retirando delas e de convênios com órgãos internacionais o financiamento necessário para suas ações. As universidades certificam que todos os professores sejam formados incorporando as perspectivas de gênero, mas permanece a dificuldade de convencer os pais da pertinência deste aprendizado por seus filhos. A presença destes ativistas nas universidades e a utilização de dinheiro público permitem que a controvérsia em torno de gênero se potencialize, já que o embate de diferentes perspectivas cognitivas é um elemento que deveria constituir o ambiente público. Contudo, o que transparece é um incômodo bastante grande dos ativistas de gênero em relação às contestações difusas que recebem.

É comum observarmos manifestações de desconforto psíquico entre os militantes de gênero, como exemplo: “Nos últimos tempos, os estudos de gênero e as pessoas que assumiram a agenda das mulheres e da população LGBT em suas pesquisas e ativismos vem sendo constantemente perseguidas, agredidas e violentadas. O avanço dessa onda conservadora, tem provocado muito mais que uma perseguição simbólica aos estudos de gênero, tem estimulado a violência contra mulheres, LGBTs e todas e todos que não se produzem dentro dos ideais normativos de gênero e sexualidade que historicamente nos foi imposto. A própria noção de gênero vem sendo deturpada sob a ótica equivocada da Ideologia de Gênero”. Apenas uma personalidade subtraída por uma crença muito forte e arrebatadora poderá sentir de forma tão aguda as contestações difusas em redes sociais como sinais de “perseguição simbólica, estímulo à violência, agressão, violação de pessoas, deturpações e equívocos” por parte de conservadores “covardes”.

Aqui é visível e absolutamente patente que nós estamos tratando com ativistas que possuem uma crença muito concentrada, uma personalidade absorvida e uma esperança salvadora nos discursos de gênero que professam. Tal certeza em suas ações é uma contradição insuperável que apresentam, pois a base teórica da qual partem professa a relativização absoluta de todos os discursos, de valores morais e de qualquer pressuposto metafísico. Eu, observador de fora destes grupos, só posso achar essas crenças tão arraigadas baseadas em teorias desconstrucionistas estranhas e enlouquecedoras para eles próprios.

O título do artigo do jornal quer fazer acreditar que os discursos de gênero partiram em seu início de pessoas silenciadas pela sociedade “patriarcal”, pessoas que estavam no limbo, escondidas e que tiveram a coragem de “saírem do armário” para defenderam mudanças libertadoras para a sociedade. (Um adendo – será que o homossexual que não quer demonstrar publicamente sua sexualidade deve ser tido como um tipo inferior que não “saiu do armário”?) Porém, a verdade dos fatos demonstra que a genealogia do termo gênero como referência às problematizações da vida social e individual, muito nelas tradicionais, relativas a antropologia humana sexuada só alcançou a projeção atual devido sua divulgação e elaboração por organismos internacionais como a ONU em suas conferências ao redor do globo. Portanto, trata-se de uma agenda para toda a espécie humana.

Por exemplo, na Conferência de Pequim, ainda em 1995, há a resolução 19 que diz que: “É indispensável formular, implementar e monitorar, com a plena participação das mulheres, políticas e programas efetivos, eficientes e reforçadores do enfoque de gênero (…)”. Então, durante a década de 1990 já havia a intenção da ONU em acelerar o “enfoque de gênero” que já tinha sido elaborado teoricamente e ainda permanecia em fase inicial de materialização e de testes nas sociedades ocidentais. Como disse uma professora da área: “É certo e já estabelecido que gênero, como um conceito, surgiu em meados dos anos 70 e disseminou-se instantaneamente nas ciências a partir dos anos 80. Tal reformulação surgiu com o intuito de distinguir e separar o sexo – categoria analítica marcada pela biologia e por uma abordagem essencializante da natureza ancorada no biológico – do gênero, dimensão esta que enfatiza traços de construção histórica, social e sobretudo política (…)”.

É preciso ter claro que gênero não é apenas um conceito utilizado em pesquisas científicas, mas um termo que já nasceu para ser incutido massivamente na mentalidade da população. Dessa forma, o termo também já estava presente na Conferência de Nairóbi da ONU de 1986, que na página 06 de suas estratégias de ação diz que: “(tradução pessoal) as estratégias para o futuro (período de 1986 – 2000) reafirmam a preocupação internacional a respeito do status da mulher, provendo uma estrutura para renovar o compromisso da comunidade internacional com os avanços da mulher e com a eliminação da discriminação baseada em gênero. Os esforços para a integração da mulher no processo de desenvolvimento devem ser fortalecidos e é necessário levar em conta os objetivos da nova ordem econômica internacional e a Estratégia de Desenvolvimento Internacional (…).” Então, os discursos de gênero encontraram na “estrutura” das universidades do Brasil o público ativista para implantação da agenda de gênero que, conforme a ONU, deve ser relacionada aos objetivos da “nova ordem econômica” formatados por este órgão. Portanto, a ideia de que os discursos de gênero saíram de um “armário” obscuro não é correta, pois nasceram do glamour das conferências da ONU.

O artigo de jornal começa com uma lamúria; o autor queixa-se de que, ao invés de tratar de assuntos mais importantes, precisa “dedicar o tempo para divulgar ataques que estamos recebendo pelo fato de pesquisarmos e militarmos pelos direitos das mulheres e pessoas LGBT.” A ONU não podia ter encontrado militantes mais obstinados para suas agendas que, em sua sanha por direitos específicos, aumentam o poder centralizador do Estado sob toda a sociedade, além de inviabilizar os direitos civis. O estranho é que estes militantes possuem aversão teórica a qualquer relação de poder, horror a tudo que consideram heteronormativo, mas não percebem que sua atuação fortalece a centralização de poder e a implementação de uma mesma agenda para toda a espécie humana. Além disso, não percebem que utilizam uma construção argumentativa completamente pautada pelo poder, pois, no caso, o autor faz crer que por detrás de suas ações existe o conjunto “das mulheres e das pessoas LGBT”. Quem foi que delegou a ele tamanha capacidade representativa? Será que todas as mulheres e todos os gays brasileiros aprovam suas perspectivas revolucionárias? Eu pelo menos escrevo aqui somente em meu nome.

Depois, o autor novamente se vitimiza utilizando a palavra “ataques”: “Os ataques não são uma novidade para quem pesquisa e milita nessa e em outras áreas dos direitos humanos.” O que significa este termo “ataques”, escrito de forma tão genérica? Será que seriam contestações a uma perspectiva revolucionária, que quer desconstruir o estatuto antropológico humano sexuado, para que assim se possa nascer o “homem novo”, que sonha com um mundo de desejos irrestritos? Qualquer pessoa, mesmo que guiada por uma percepção não elaborada intelectualmente, pode rejeitar de pronto, se assim desejar, os discursos de gênero que circulam pelo ocidente promovidos pela ONU. É plenamente legítimo que acadêmicos rejeitem estas perspectivas, que religiosos, que pais de família, trabalhadores, idosos, mães delas se afastem de forma mais ou menos consciente.

Nenhuma rejeição pública pode ser considerada um ataque, a não ser que rompa com o limite legal e se torne uma ação criminosa. Acredito que ninguém foi capaz de imaginar que todos os ativistas de esquerda fossem simples assassinos quando dois militantes mataram um cinegrafista enquanto cobria uma manifestação; eles foram presos e respondem pelos seus crimes, assim como deve acontecer com todo aquele que praticar um crime contra um militante de gênero, como no caso das supostas ameaças de morte a uma pesquisadora da área. Agora, o que me transparece é que os ativistas de gênero esperam da sociedade brasileira nada menos do que a mimetização obediente de seus processos neurolinguísticos. Se for isso, o poder heteronormativo que observam e criticam será usado como plataforma para algo muito mais opressivo.

O autor exemplifica como “ataque” o artigo de um jornalista que o teria ridicularizado, pedido sua demissão e defendido a heterossexualidade. Por acaso o autor está sugerindo que se institua no Brasil o crime de opinião? Quantos escritos já li com uma ponta aguda de ironia que ridicularizava as ideias de seus oponentes. Então, teremos que reelaborar a arte da retórica para não despertar as suscetibilidades devotas dos ativistas de gênero? Será que teremos que proibir a liberdade de expressão? Um jornalista pode pedir a demissão do presidente da república, porque não pode pedir de um professor? Por sinal, seria bom que o autor se preocupasse com a geração de filhos através de relações heterossexuais no Brasil, pois serão esses filhos capacitados intelectualmente e produtivos que sustentarão sua futura aposentadoria de funcionário público.

É preciso deixar claro que ninguém em sã consciência deve se opor a igualdade de direitos e deveres entre todas as pessoas na sociedade ocidental. Embora eu seja contra a adoção de direitos específicos para qualquer grupo, não é contra “as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo” ou contra os “os direitos das pessoas LGBT” que setores conservadores e cristãos da população brasileira tem se manifestado, mas em razão do próprio núcleo da Teoria Queer: O borramento das diferenças sexuais da espécie humana.

Depois, o autor diz que está processando uma psicóloga que diz que ele é um “’falso profeta’” que quer destruir a família.” Eu posso dizer, sem o conhecer melhor, que ele me parece sim um “verdadeiro profeta” revolucionário de uma nova sociedade projetada pela ONU, agência que aposta no enlouquecimento da população para melhor concentrar poder e que trabalha para a destruição da família nos moldes cristãos. Mas se expressar uma opinião é causa de processo, então como teremos liberdade de expressar nossas opiniões após a completa hegemonia neurolinguística dos militantes de gênero, que enquadram todos seus desafetos como criminosos: “machistas, homofóbicos e misóginos”? O autor se queixa que um aluno da UFBA respondeu um questionário do projeto “Aceita!” que perguntava “como você definiria seu gênero”: “como um tiro de escopeta na cara de vocês suas minhocas”. O estudante não foi nada amigável, convenhamos, mas sua fala foi restrita a um questionário, que ao deixar a resposta em aberto, abria a possibilidade de captar reações espontâneas que não “aceitassem” se definirem em termos de gênero como queria o projeto “Aceita!”.

Por fim, será que o autor já se perguntou sobre a conveniência de sua própria militância? Será que ele já se perguntou se não haveria pessoas que não querem problematizar sua sexualidade? Será que alguém pode ter o direito de não querer problematizar a sua sexualidade? Será que alguém pode não querer que a sexualidade de seus filhos seja problematizada na educação infantil? Quais os limites de uma militância que quer impor seus processos neurolinguísticos? Posso ter o direito de não querer mimetizá-la? Será que vivemos num mundo cada vez mais totalitário?

Como conclusão, é preciso registrar que no final do texto o autor parece assumir aquelas típicas babaquices adolescentes do tipo: “Seu ódio me fortalece”. Assim, diz ele sobre um curso introdutório sobre Judith Butler que estava sendo lançado: “Nada disso vai impedir o prosseguimento do nosso trabalho. O que está acontecendo é exatamente o contrário. Essas ameaças estão servindo para realizarmos coisas que nem esperávamos fazer agora e para nos organizarmos em rede.” É necessário avisá-lo que a aceleração ou o recuo estratégico da agenda de gênero no Brasil serão controlados por quem as implantou neste país, ou seja, a ONU. Os ativistas universitários de gênero são apenas a estrutura central para a implementação da agenda nas escolas primárias, cujos pais precisam ser preparados pela grande mídia. Os ativistas respondem aos estímulos difundidos no ambiente por organismos internacionais, e estes estímulos estão, por enquanto, solicitando que trabalhem obstinadamente sem olhar para os lados.

O Prof. Dr. Rodrigo Guimarães é membro da ACONS/RS e colunista deste blog

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